Dia de Folga

thunder

“… e todas as coisas se vão.

A jornada acabou.

Amor a todos,
Martin.”

— Enfim — disse o rapaz largando a caneta e espreguiçando-se na cadeira, os braços para o alto, os dedos cruzados.

— Chegou a hora.

Ele curvou-se sobre a mesa e envolveu o revólver negro na mão direita. A arma era pesada e ele sentiu-se bem ao segurá-la. Endireitou-se, relaxou os ombros e soltou um suspiro que movimentou a folha amarelada em cima da mesa. Pela janela ele podia ver a chuva metralhando o jardim. O barulho ensurdecedor da água batendo no vidro lhe dava a certeza de que aquela era a noite certa. Os trovões gritavam a plenos pulmões em meio à noite fria.

Ele armou o cão do revólver e levou o cano até a têmpora. Fechou os olhos. A mão não tremia. O dedo no gatilho, sim.

O estrondo pareceu tremer a casa e foi seguido por um clarão que iluminou o ambiente.

— Ei, garoto — disse uma voz sobrepondo o jogo de trovões que continuava no céu — O que diabos você acha que está fazendo?

O rapaz abriu os olhos e deixou escapar um grito tão alto quanto o trovão que havia feito a casa tremer há pouco. Do outro lado de sua mesa, sob a janela, uma figura comprida lhe encarava. O rosto estava escondido na escuridão, e o corpo era iluminado pelos flashes dos relâmpagos.

— Quem é você? — gritou o rapaz, apontando o revólver para a figura estática.

A figura guardou as mãos nos bolsos da calça social e deu um passo à frente, revelando um rosto arquitetado em mandíbulas quadradas e coberto por um topete loiro, quase branco.

Não se mexe! — gritou o rapaz, ficando de pé. O revólver tremendo em direção ao homem.

— Eu sou a Morte — disse o homem, e então deu mais um passo à frente.

O som do tiro foi seguido pelo estouro do vidro da janela. Um sopro gelado e furioso de vento adentrou a sala. O homem olhou para o buraco na janela e então de volta para o rapaz.

— Caramba, agora é capaz de você ficar gripado, garoto. Bom, não que isso importe muito, levando em consideração a carta e tudo o mais, né?

Ele pensou em atirar de novo e grudou-se a esse pensamento, mas simplesmente não o fez. Não parecia haver sentido em mais um tiro.

— Agora que já fomos apresentados… — disse o homem que era a Morte, aproximando-se e sentando-se na mesa, os pés balançando no ar. E então: — … me diga o que diabos você estava fazendo?

O rapaz baixou a arma e limpou a garganta. Enquanto esperava, a Morte puxou um cigarro do bolso da camisa e um isqueiro do bolso de trás.

— E-Eu, eu ia, bem…

Chk, chk, chk, fazia o isqueiro em meio à frase do rapaz.

— Eu ia me matar.

O isqueiro ascendeu o cigarro e a Morte levou-o à boca.

Uhum…

— Você é mesmo… a Morte?

O homem expeliu a fumaça para o alto.

— Você esperava a Eva Green de batom roxo num vestido longo, negro e decotado? Sinto muito, garoto.

— O quê?

— Sim, Martin. Eu sou a Morte. Uma delas, pelo menos.

— Mas se você é a Morte… — começou o rapaz, molhando os lábios — e se você está aqui — ele largou o revólver em cima da mesa e arregalou os olhos para o homem — então quer dizer que…

O homem pegou o revólver pelo cano e martelou a mão esquerda do rapaz com o cabo da arma.

Argh! — gemeu o garoto puxando a mão esquerda para perto de si e esfregando-a com a direita.

— Quer dizer que eu cheguei antes de você fazer merda. Só isso.

O rapaz aproximou-se da mesa novamente e tocou a carta que escrevera há pouco.

Você já sentiu, alguma vez, que queria ir, e, ao mesmo tempo, que queria ficar? — recitou a Morte admirando a fumaça expelida de seus pulmões.

— É um bom pensamento, garoto — comentou.

— É de uma música…

— Eu sei. O que é que não é?

O homem, que era a Morte, virou-se na cadeira e arremessou o restante do cigarro para fora da janela com um disparo certeiro do dedo indicador.

Você já sentiu a confusão que é ter tudo mas não querer nada? — continuou recitando a Morte. — Às vezes…

— Você veio me salvar? — interrompeu o jovem.

— Não — respondeu o homem, cruzando as pernas e encarando o teto da casa — não tem o porquê de uma salvação. É o maldito século vinte e um e as pessoas ainda acham que a morte é uma coisa ruim…

— Bem, eu meio que esta-

— Eu achei que já teríamos passado dessa fase, sabe? Que vocês já teriam entendido e se conformado e et cetera

— Sim, inclusive eu-

— Mas não, vocês continuam com medo, continuam sem entender a oportunidade que lhes é dada, o presente que-

— Eu não tenho medo — disse o rapaz para si mesmo.

O homem, que era a Morte, voltou sua atenção para a o garoto, virando a cabeça para ele.

— Não, — disse a Morte — você realmente não tem. Posso sentir. Você ia mesmo fazer isso, não ia?

— Sim. E ainda pretendo.

— Você não pode fazer isso — disse a Morte, levando a mão ao queixo e correndo os dedos pela rala barba que ameaçava nascer.

— Por que não? Você por acaso vai tocar na minha mente e me mostrar o meu futuro brilhante, os dias de glória e felicidade que tenho pela frente, todos os motivos pra que eu continue preso a essa vidinha sem propósito?

O rapaz mal pôde ver, mas o homem descarregou a mão aberta sobre a mesa de madeira produzindo um estouro seco. Lampejos e clarões invadiram a sala pela janela, acompanhados de uma sequência de trovões. À sua frente, a Morte parava de pé: os olhos, cinza como chumbo, arregalados; a mão esquerda ainda grudada à mesa.

— Você acha que isso é algum tipo de brincadeira? — disse a Morte. Sua voz não saía da boca do homem, mas sim das paredes da casa, do vento que soprava pela janela, dos trovões e da chuva lá fora. Ela não tinha entonação. Não era grave, nem aguda. Não era rouca, nem suave. Ela não tinha vida.

Afundado na cadeira e com as mãos agarradas ao assento como se sua vida dependesse disso, o rapaz apenas ofegava. Soltou alguns murmúrios, mas não conseguiu responder.

— Você não faz a mínima ideia do sistema que envolve a morte de uma pessoa, garoto. Nenhum de vocês, Precoces, faz. Não enquanto ela não chega, ao menos. E não é você, garoto Martin que tem tudo mas não quer nada, que quer tanto ir mas que também quer ficar, quem vai quebrar esse sistema, hoje à noite. Hoje à noite, você vive. Hoje à noite, você aguenta mais uma vez. Você permanece.

Do lado de fora, os trovões começavam a diminuir e já soavam distantes. A chuva perdia força e aos poucos transformava-se em uma garoa lenta.

O homem recolheu a mão da mesa e virou-se de costas para o rapaz, em direção à janela quebrada.

— Mas… E-Eu tenho o direito! Eu posso fazer o que eu quiser da minha vida — disse o rapaz ficando de pé e empurrando sua cadeira para trás.

— Exatamente, garoto — disse o homem, sua voz de volta ao normal. — Faça o que quiser da sua vida. Faça tudo. Faça algo. A vida é sua. Mas a sua morte é minha. Não pense que você pode decidir o que fazer com ela.

O homem, que também era a Morte, caminhou até parar de frente para a janela. Uma corrente de vento gelada começou a soprar com força para dentro da casa. Ali a Morte ficou, os olhos longe, observando a noite.

O rapaz parava de boca aberta, sem acreditar direito no que estava acontecendo naquela noite. Ele decidiu que fechar a boca, molhar os lábios e umedecer a garganta gelada eram as escolhas certas num primeiro momento. Então ele disse:

— Por que você fez isso? Por que… me parou?

O homem virou a cabeça para ele com um meio sorriso.

— Hoje é meu dia de folga. Eu não podia deixar você arruiná-lo.

Uma rajada de vento invadiu a sala como um caminhão atravessando uma parede. O rapaz cambaleou e esfregou o antebraço nos olhos. O homem, que também era a Morte, parava do lado de fora da janela.

— Ei! — chamou o rapaz.

O homem mirou-o através do vidro.

— Eu vou ver você novamente?

Os olhos cinza espremeram-se sobre um sorriso branco que atravessou o rosto do homem, branco como os raios causados por uma tempestade. Novamente, a voz não saiu da boca do homem, mas sim, de tudo o que havia.

— Mais uma vez, garoto. Uma única vez, e só.

E nada mais havia do outro lado, se não a noite escura e as estrelas que a maquiavam. O vento e a chuva haviam parado. A tempestade, também. Ao menos, por enquanto.

Mateus Feld
Revisão: Nicole Roth

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Tudo começou com uma pergunta:

“Mas o que você quer?”

O que eu quero? É sério. Ela perguntou isso mesmo. Que tipo de pergunta é essa? Quem é que pergunta isso pra alguém, assim do nada? Cristo…

Como sou um cara simples, fui direto à minha resposta.

“Eu quero mais amor,” respondo.

Estávamos no apê da Mariana. Ela abraçada na perna esquerda em cima do sofá, a cabeça sobre o joelho, me encarando com aqueles olhos enormes como se eu fosse um mistério tão grande a ser desvendado. Você sabe como é. Enfim.

“Isso é tudo o que eu tenho pra dar”, ela diz, erguendo as mãos.

Isso é tudo o que ela tem pra dar! Vejam só. Certo. Tem certeza que não tem mais um pouquinho aí em algum lugar? Eu não sou um cara exigente. Qualquer restinho de algum outro amor que ficou para trás, se puder juntar com o nosso, não me importo mesmo. Pra quê criar problema, sabe?

Eu pensei em muitas coisas, como “e tudo o que eu fiz por nós?”, ou “se você quisesse mais amor eu teria caminhões pra te dar”, ou “eu vou consertar isso e dizer que vou melhorar, só pra gente continuar vendo nossos vídeos de gatinho no YouTube e postergar essa discussão” ou “eu mentiria que te daria mais amor e te enganaria secretamente só pra te deixar feliz, e tudo bem, porque eu não sou um cara muito exigente ou que precisa das coisas bem definidas mesmo”, mas… Sei lá. Às vezes a gente tem essas coisas certas a serem ditas, e só acaba com cara de pastel respondendo:

“Certo…”

Eu faria todas essas coisas pra manter o nosso relacionamento, e ela vem e diz que isso é tudo o que tem pra me dar. Fala sério.

Ela dá uma daqueles suspiros matadores, sabe? Que gelam o coração.

“Olha, você pode arranjar alguém melhor que eu…”

Pode apostar que eu posso!

“E eu posso arranjar alguém melhor que você.”

Opa, pera lá. Como assim? É você que não consegue me dar mais amor. Que direito você tem de sair com outra pessoa? A culpa não é minha se você não está disposta a mentir pra mim só para ficarmos bem. Você tem que ficar infeliz! E triste e sozinha! Eu que estou sendo o prejudicado aqui.

“Acho que você está certa”, eu digo.

Não me olhe com essa cara.

“Então… é o fim?” ela pergunta.

Não! Por favor, não! Eu não preciso de mais amor. Tá ótimo assim. Eu me ajeito aqui, consigo me virar com esse tanto.

“É… Acho que sim.”

Preciso admitir que essa foi a primeira vez que terminei um relacionamento em que eu tivesse razão no fim. É uma situação um pouco constrangedora, para ser sincero. Como quando na praia alguém diz que vai para o fundo do mar, e você diz para a pessoa não fazer isso pois ela vai morrer afogada, e então ela realmente morre afogada, e você não pode simplesmente chegar nos pais dela e dizer “então, eu avisei…”. Você tem razão, mas isso não adianta de nada agora.

Eu me levanto e vou até a porta, carregando minha mochila. A Mariana vem atrás.

“Podemos tomar um café algum dia, ao menos?” eu pergunto para a Mariana quando estou saindo.

Ela pensa um pouco sobre isso.

“Acho que sim, um dia. Tudo bem.”

“Tipo… Amanhã?” eu pergunto.

“Não.”

Eu balanço a cabeça com um ‘Sim, imaginei’ acelerado e mantenho o olhar baixo, sem saber o que dizer ou fazer. Então faço o que sempre faço quando não sei o que fazer ou dizer.

“Eu te amo,” eu digo para ela antes de ir embora.

“Eu sei,” ela responde.

Eu consigo terminar um ótimo relacionamento de um ano e meio por egoísmo. Eu bebo duas garrafas de vinho em uma noite e caio na cama apagado. Eu me abro facilmente com estranhos. Você não sabe muito sobre mim, e mesmo assim, já sabe tanto.

Por muito tempo me senti mal — horrível, destroçado, atropelado, desintegrado. Por muito tempo me senti sozinho. Como Plutão ao descobrir que foi rebaixado para a série B do Sistema Solar. Por dias e dias, vivi enrolado no manto negro da solidão. Foram duas semanas muito sombrias, mesmo.

Mas aí conheci a Janaína e tudo mudou. Ela veio como um sopro… Não. Como um tornado. Um tornado flamejante de inspiração e frescor na minha vida. Nos conhecemos na feira de antiguidades que eu e a Mariana costumávamos frequentar todo domingo à tarde (fui no mesmo horário em que sempre íamos, pois imaginei que a Mariana, se fosse, iria tomar o cuidado de ir em outro horário).

Estávamos nos dando super bem. Ela era perfeita para mim, e eu para ela. Nosso relacionamento não podia ser mais certo e puro e bonito, mesmo considerando o fato de a Janaína ter outra pessoa.

Ah sim, havia esse “porém”. A Janaína tinha outra pessoa.

Eu sei o que você está pensando agora. Sei como está me olhando. Mas a verdade é que tudo bem. Eu podia lidar com isso, sabe? Quer dizer, eu nunca havia estado em um cenário desse tipo antes, e até me surpreendi com minha abertura. Mas está tudo bem, obrigado.

E tudo isso foi mérito da Janaína. Ela foi foi super aberta sobre isso, comigo e com a outra pessoa. Na verdade, ela a conheceu no mesmo domingo em que nos conhecemos. Algumas horas depois de termos trocado nossos números.

E hoje à noite, jantamos os três juntos pela primeira vez. Acabei de chegar em casa, inclusive, e ainda estou embriagado pelo encanto que foi essa noite.

A Janaína nos contou sobre como se apaixonou por nós dois quase que de cara. E nós dois conversamos e demos risadas e compartilhamos sobre o quanto a Janaína havia nos encantado e sido uma luz em um momento de escuridão no qual ambos nos encontrávamos. É sério, eu não sei quanto tempo fazia desde que não tínhamos uma conversa assim, a Mariana e eu. Até foi um pouco esquisito ver ela no início do jantar sem estar sob o status de “minha namorada”. Ali sentada, como se fosse outra pessoa, sabe? Como se estivéssemos nos conhecendo novamente.

A Mariana estava certa, no fim. Eu encontrei alguém melhor do que ela, e ela encontrou alguém melhor do que eu (por mais difícil que isso pudesse ser). Só tivemos a sorte de essa pessoa ser a mesma.

Mas, às vezes, a vida faz dessas né? Talvez nós dois precisássemos de mais amor. E essa história, que começou com uma pergunta amarga para mim, acabou terminando com uma resposta encantadora. Uma resposta para nós dois.

Mateus Feld
Revisão: Nicole Roth

Histórias Roubadas #1: Alguém sempre dirige

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A mulher entrou no carro carregando uma brisa gelada junto dela.

O homem no volante a encarou pelo retrovisor.

“Pode seguir,” ela respondeu ao olhar do homem.

Ele engatou a primeira e entrou de volta na via. Esperou o tempo que acreditou que levaria para que a mulher pegasse o celular na mão — como sempre faziam — e então lançou outro olhar ao retrovisor. Mas os olhos negros dela já o esperavam ali. Ele desviou o olhar. Ela não.

“Para onde, moça?” ele disse depois de um minuto rodando.

Golden Gate,” ela respondeu olhando pela janela. O cotovelo colado no vidro. O queixo repousando na palma da mão. Observava a madrugada agindo lá fora, esfriando as ruas, preparando-as para o calor da multidão que em poucas horas as ocupariam novamente.

“A ponte?” perguntou o motorista fazendo uma conversão e aproveitando para espiar a mulher pelo retrovisor. Pernas cruzadas em um vestido lilás que cobria o corpo cor de café com leite.

“É, a ponte,” ela respondeu.

O homem assentiu para si mesmo e deu o pisca para a esquerda.

“Eu vou pular da ponte,” ela disse, voltando a encarar os flashes das luzes passando lá fora.

O homem correu os dedos pelo bigode, então pela barba, para terminar juntando-os novamente abaixo do queixo. Pôde ouvir o celular da mulher vibrando. Ela ascendeu a tela e a apagou novamente, sem qualquer reação.

“É?” ele questionou, tirando um pouco o pé do acelerador, pisando menos fundo.

“É”.

“Muitas pessoas pulam.”

Ela assentiu com a cabeça. Seu celular vibrou novamente, mas ela não olhou dessa vez.

“Eu vou me matar,” ela disse para a janela.

“Entendo,” disse o homem, apesar de não entender tanto assim.

“Você não vai tentar me impedir?” perguntou a mulher.

“Não”, ele respondeu. “Porque eu deveria?”

Ela desviou os olhos da janela e procurou pelos dele no retrovisor, mas não os encontrou lá.

“Por que eu tenho muito pela frente? Por que eu não estou sozinha? Por que existe um mundo de possibilidades? Por que essa não é a única saída?”

Ele olhou para o retrovisor, então de volta para a estrada, e disse:

“Quem tem de responder essas perguntas é você. Eu apenas dirijo.”

Em cinco minutos estariam na Golden Gate.

“Você diminuiu a velocidade quando falei que ia pular.”

“Não,” ele respondeu. “Diminuí porque seu celular não para de vibrar e tem alguém querendo saber de você. Só estou dando uma chance a mais pra essa pessoa.”

A mulher apertou os olhos e voltou a encarar a janela. As luzes da Golden Gate já brilhavam logo à frente. O celular insistiu novamente, mas ela o ignorou outra vez.

O homem diminuiu a velocidade e encostou o carro antes de entrar na ponte.

“Dezoito dólares,” ele disse, virando-se para trás pela primeira vez.

Ela puxou uma nota de vinte de sua bolsa e a estendeu até a mão dele.

“Acho que você não vai precisar do troco, né?” ele disse com a nota na mão, olhando para ela.

“Não, acho que não” ela disse com um suspiro, abrindo a porta e descendo do carro.

O homem deu o pisca e fez o retorno. Pelo retrovisor, viu a mulher tirando os saltos e caminhando descalça sobre o asfalto ponte adentro.

Já estava longe demais para dizer com certeza, mas podia jurar ter visto a mulher pegando o celular na mão, antes de desaparecer na noite.

“E foi isso,” disse o homem.

Ele levou o pastel de frango até a boca e deu uma mordida generosa. Dirigira a noite toda, até o sol nascer e ele encostar nesse café no centro da cidade.

“Não faço ideia se ela pulou ou não.”

“É uma boa história,” lhe respondi sorrindo. “Obrigado.”

“De nada” disse ele, apontando o pastel cheio de mostarda para mim.

“Vai publicar ela?”, me perguntou, em meio a um bocejo.

“Acredito que sim,” respondi, dando um último gole no meu expresso.

Ele abriu um sorriso que correu o rosto de um lado ao outro. “Ótimo, ótimo. Muito obrigado”.

“Por que?” perguntei a ele me levantando e fechando meu notebook.

“Se você publicá-la, ela vai viver para sempre.”

Olhei para ele e virei a cabeça, esperando algo a mais.

“A mulher. Ela vai viver para sempre. Tendo pulado, ou não.”

Sorri de volta para o homem e dei um tapa de gratidão em seu ombro. Então, levando sua história, deixei-o para trás e saí para a cidade.

Mateus Feld
Revisão: Nicole Roth

A cor da Morte não é o preto

São 18:00, no Centro, e o sinal vai fechar em cinco segundos — sei disso pois já decorei a contagem de todos eles. É a hora do rush, e todos estão na rua.

O vermelho acende. Eu enfio o pé no acelerador. Fecho os olhos e toco o volume lá em cima.

In an interstellar burst, I am back to save the universe!

Eu abro os olhos somente pra me ver do outro lado da avenida. É a oitava vez que faço isso essa semana. Alguns resquícios de buzinas e saudações carinhosas dos outros motoristas escapam pra dentro do meu carro.

Quer morrer, ô trouxa?” ouço um frentista gritar. Finalmente alguém que me entende.

A noite vai chegando devagar. Vou seguindo pela principal e vejo um pequeno grupo de pessoas acumulado na porta da igreja à frente. Casamento? A essa hora? Não… Velório. Com certeza, velório. Não existe hora pra morrer, afinal.

O cemitério fica do outro lado da avenida. As pessoas vão atravessar assim que o sinal fechar.

O sinal fecha. Eu paro. Quero observar.

Logo surge o protagonista do evento. O caixão negro atravessa as portas da igreja carregado por quatro terninhos musculosos. E atrás do caixão, vem Dona Morte. Quer dizer, se a Morte for uma mulher, é difícil imaginá-la diferente daquela que segue o caixão. Ela tem o cabelo curto com as pontas afiadas, contornando o rosto dos dois lados como adagas. Alguns fios loiros vão grudados à boca pintada de roxo, presos pelas lágrimas já secas. O vestido negro a cobre do pescoço aos pés, mas nenhuma vestimenta é capaz de esconder um belo corpo.

Diabos, se ela fosse a Morte, eu daria um jeito de não passar dessa noite.

Mas ela não é a Morte. É a Viúva.

Eles pisam no asfalto e começam a atravessar com o caixão. Vão devagar. Estão no meio da faixa de segurança quando a Viúva para e olha pra mim. Ela para. E olha pra mim. Pra mim. O vermelho sangue do sinal fechado a contorna. Eu encontro o seu olhar borrado.

Os olhos inchados dela me dão raiva. Eu fico com inveja do cara que está no caixão. Os olhos inchados dela me dizem o que ela quer.

Eu sei o que você quer.

Faltam cinco segundos para o sinal abrir. Ela continua parada me encarando. Eu engato a primeira e enfio o pé no acelerador.

De olhos abertos, dessa vez.

Teremos uma noite e tanto.

mateus feld
revisão: nicole roth

O Dia em que o Céu Encheu

O Céu estava congestionado. As nuvens, carregadas, pesadas. Mal dava para ver entre elas. Não havia como analisar o cenário atual, quanto menos fazer uma tomada de decisões. Diabos, preciso dessa análise SWOT pra ontem, e não consigo encontrar uma pena e um tinteiro, pensou Deus. Trovões secos tamborilaram. Não há espaço nem pra se mexer direito. De fato, um dos problemas de ser onipresente é que você ocupa um bocado de espaço.

— Já chega — disse Deus— preciso tomar uma atitude.

— Metatron! — Ele chamou.

— Pois não, Senhor? — respondeu Metatron, o Auxiliar de Deus.

— Faça uma ligação para mim, por favor.

Deus deu as instruções. Cinco minutos se passaram, e Metatron ainda não havia retornado com a ligação.

— Metatron? — chamou Deus.

— Sim, Senhor?

— E a minha ligação?

— Perdão, Senhor. Estou tentando sair do menu.

— Como assim, sair do menu?

— A ligação dá direto em um menu. Não consigo falar com ninguém. Aliás, ‘o Senhor gostaria de ouvir a lista de nossos lançamentos mais recentes?’; ‘Tem dúvidas técnicas sobre o funcionamento de algum de nossos produtos?’; ‘Está buscando soluções práticas para sua empresa?’ ou ‘Este é seu primeiro contato com a nossa marca’? — disse Metatron, finalizando quase sem fôlego.

Deus pensou um pouco sobre isso.

— Eu gostaria de falar com um atendente.

— O menu não dá essa opção, Senhor.

— Vou precisar reclamar isso com eles, então.

— Sim, Senhor.

Deus pensou um pouco mais sobre isso. Dando de ombros, suspirou e disse, finalmente:

— Estou buscando soluções técnicas para a minha empresa…

— Certo — disse Metatron, apertando o número 3.

Mais um tempo se passou. Deus pensou em como seria uma boa instalar esse sistema de menus no Paraíso. Precisava mesmo de uma solução eficiente para organizar o grande número de orações que entravam todos os dias.

— Senhor? — chamou o Auxiliar de Deus.

— Sim, Metatron.

— Preciso informar nosso cadastro.

— Como assim?

— A moça me informou que para fazer uma reclamação, eu preciso digitar nosso cadastro. Então eu agradeci a ela, voltei alguns menus e encontrei a parte de críticas e reclamações. Agora preciso digitar o cadastro.

Deus fechou os olhos e respirou fundo.

— Metraton.

— Sim?

— Você estava falando com uma atendente.

— Sim, Senhor.

— E você não me passou a ligação.

Er… De fato, Senhor.

— Eu disse que queria falar com uma atendente.

— Mas o Senhor disse que precisava fazer uma recla-

— Metatron — interrompeu Deus.

— Sim?

— Volte com a atendente, por favor. E me passe o mais rápido possível.

— Certo.

Deus já não sabia mais o que fazer com Metatron. Desde que Gabriel pedira para trocar de função, as coisas não haviam mais sido as mesmas.

Enquanto Sua ligação não voltava, Deus resolveu mergulhar nas orações pendentes daquele dia. Além da falta de espaço no Céu, ver Sua Caixa de Entrada cheia O deixava nervoso (poucas pessoas sabem disso, mas Deus tem sérios problemas de ansiedade. De fato — e menos pessoas ainda sabem disso — , os vulcões haviam sido criados durante um de Seus ataques de pânico. O deadline para a Criação era muito apertado, e aquela havia sido uma época bem complicada).

Finalmente, a linha divina tocou. E Deus atendeu:

— Metatron, existe um bando de anjos que dariam as duas asas para ocupar a sua vaga, sabia disso?

— Microsoft, senhor — corrigiu uma voz feminina que vinha do outro lado, e então: — Em que posso ajudá-lo?

Er, olá, eu… Bom dia — gaguejou Deus, o vermelhão Lhe subindo tanto pelo rosto que você poderia até confundi-Lo com o Diabo. Isso, caso Deus tivesse um rosto de verdade. E também, é claro, caso o Diabo ficasse envergonhado por alguma coisa.

— Bom dia! Em que posso ajudá-lo? —disse a telefonista do outro lado.

Deus limpou a garganta, e já recomposto, disse:

— Eu gostaria de falar com Bill.

Cinco segundos de silêncio se passam, até que a telefonista decide voltar a falar:

— Bill, senhor?

— Isso mesmo, Bill. O Sr. Gates. William. Trey. Como quer que o chamem por aí. Diga que preciso de sua ajuda.

— Certo… E quem gostaria de falar com ele?

Deus pensou um pouco sobre isso. Estava cada vez mais difícil interferir no dia a dia da humanidade e ao mesmo tempo manter as coisas por baixo dos panos.

— Jeová — disse Ele, por fim.

— Ok, só um instante — e no lugar da voz feminina surgiram arranjos de piano e violino. Se você já ligou para a Microsoft, sabe como é.

De seu trono alado, Deus podia ver Tudo. Podia ver o belo prédio da Microsoft. Podia ver a telefonista, agora pegando um telefone diferente, em meio aos outros doze que a rodeavam. Podia ver, também, Bill Gates recostado em sua cadeira de couro, em sua sala presidencial, assistindo a um episódio de Animal Planet enquanto se lambuzava com o doce de abóbora que Melinda havia feito no dia anterior (se você já almoçou na casa dos Gates em um domingo de verão, sabe do que estou falando). Podia ver Bill pausando o episódio, pegando o telefone por um instante, murmurando algo, e então largando-o de volta na base.

Enquanto Deus assistia Bill erguer os pés para deixá-los cair de volta sobre a mesa, o piano e os violinos foram interrompidos pela voz da telefonista.

— Sr. Jeová?

— Sim — respondeu Deus

— Infelizmente, o Sr. Gates não poderá atendê-lo no momento.

Deus abriu uma de suas planilhas e correu os olhos até a letra G. Então encontrou a linha “GATES, Bill” e fez uma marcação ao lado: “1 de 3”.

— Certo. Posso deixar um recado?

— Claro, senhor.

— Diga ao Bill que precisamos falar sobre esse negócio de Dados na Nuvem. Nossa capacidade aqui em cima não é infinita, okay? E vocês geram dados pra caramba. Eu deixei vocês usarem as Nuvens, mas não achei que seria assim. Nós também precisamos de espaço pra trabalhar — disse Deus, elevando a voz levemente.

— Enten— começou a moça da Microsoft, mas Deus continuou seu desabafo:

— Aliás, esse é o problema com vocês. Vocês conseguem inventar cada coisa legal, mas aí já saem abusando o máximo possível delas sem pensar nas consequências para tudo o que não é terráqueo. Isso não é bacana, sabe?

— Claro, senh—

— Eu sei que não é só Bill o responsável. Existem tantos! Em seguida já vou ligar para aquele rapaz indiano e para outros também. Mas já seria um começo, sabe? Bill é um cara legal, não é?

— Sim, senhor. É, sim.

— Ótimo. Então fale com ele. O serviço de vocês é bom. Mas precisamos regularizar essa questão o quanto antes. Eu tenho uma ideia de um outro lugar onde podemos armazenar todos esses dados, ao invés do Céu, e eu acho que pode dar certo. Enfim, existem novos projetos para a Humanidade, e preciso de um ambiente mais clean pra conseguir pô-los em prática, ok?

— Ok — respondeu a telefonista.

— Obrigado — concluiu, Deus.

Ahm, senhor?

— Sim?

— Aquilo que o senhor falou antes… Sobre anjos e sobre perder o meu emprego… O senhor está sabendo de alguma coisa? Eu acabei de comprar um carro e… —

Deus suspirou longamente e disse:

— Fique tranquila, minha filha. Seu emprego está garantido por bastante tempo.

— Certo, senhor. Obrigada.

— Até mais — disse Deus.

Após encerrar a ligação, Deus começou a listar mais pessoas na Terra que poderiam ajudá-Lo. Até que lembrou-se de uma ajuda que ele poderia ter ali, ao Seu lado. Seria muito mais fácil. Era sempre uma burocracia irritável conseguir fazer qualquer coisa em parceria com a Terra. Uma burocracia que não havia sido criada por Ele.

— Metatron! — chamou Deus.

— Sim, Senhor?

— Aquele rapaz, Steve, sabe?

— Sei sim, Senhor.

— Traga-o aqui, por favor. Preciso falar com ele agora.

— Esse não ficou conosco, Senhor.

— Droga.

Dias se passaram no Paraíso, com Deus tentando contato com o rapaz indiano; com o rapaz que negou a oferta de 9 dígitos de Steve há alguns anos; com aquele pessoal da Alemanha (Deus até pensou em trocar o seu ERP pelo deles, caso ajudassem com o problema das Nuvens); com Bill novamente (2 de 3, agora), e, depois das várias tentativas falhas de contatar Steve, resolveu, relutantemente, falar com o rapaz que havia ficado em seu lugar (Ele não tinha nada contra o rapaz, apenas sempre havia se identificado muito com Steve — gosto por controle, design simples, maçãs etc).

De nada adiantou. Ninguém respondia a Deus.

Ele precisava agir rápido. Logo o Céu seria tomado por um emaranhado colossal de informações, dados, sistemas empresariais, trabalhos de conclusão de curso, vídeos de gatos e fotos do final de semana.

Ele podia até ver, já. As nuvens lotadas. Almas nas ruas, sem lugar para morar. Anjos revoltosos acusando-O de má administração. Um impeachment estourando. A coisa ia ficar preta para o Seu lado.

Preta

Então, Ele soube.

Mas é claro! Ele tinha a solução em Suas mãos. E o melhor: Ele já havia a usado antes. Com outros propósitos, é claro, mas… Podia dar certo. Podia darmuito certo. Tudo o que Ele precisava fazer era esvaziar as nuvens… Uma solução simples e efetiva. Começaria agora mesmo.

— Metatron!

— Sim, Senhor?

— Traga-me os planos do Dilúvio. Acredito que estes ainda não foram digitalizados.

***

Mateus Feld
Revisão: Nicole Roth

Ocultos

Essa foi uma semana difícil para os Ocultos. A morte do Tédio abalou a todos. Bem, todo mundo sabia que o Tédio acabaria morrendo logo, era só você olhar ao seu redor. Mas mesmo assim, ninguém, nem mesmo o Sarcasmo, imaginava que isso fosse acontecer naquele dia.

O Tédio morreu em um domingo. Foi um choque. Naturalmente, os Ocultos foram ao velório. Menos a Indiferença. A Indiferença ficou na cama.

A partir daí, os dias foram estranhos.

Na segunda-feira, o Silêncio vestiu seu terno mais cinza, dentre as dezenas de ternos cinza que ele acumulava, e tentou reunir os Ocultos para que discutissem sobre o futuro sem o Tédio. Infelizmente, nenhum dos Ocultos, com exceção da Paranoia, deu ouvidos ao Silêncio. Então ele disse à Paranoia que não se preocupasse, pois o assunto que ele tinha para tratar não era nada demais.

Na terça-feira, a Dúvida, que é muito emotiva e ainda estava abalada, decidiu que precisava ser produtiva para manter a cabeça ocupada. Até a meia noite, ela conseguiu cancelar oito casamentos, quebrar três empresas de investimento financeiro, atrasar o futuro de cinquenta jovens e acabar com a noite de vinte casais de namorados que só queriam ter conseguido escolher qual filme eles assistiriam naquela noite.

Na quarta-feira, o Oportunismo chamou a Inocência para jantar na casa dele, já que ela continuava em choque por ter descoberto que um Oculto podia morrer. Era apenas um jantar, e nada mais, ele garantiu. Talvez, se desse vontade, poderiam, no máximo, assistir um filme, e depois, por que não, ele a deixaria em casa. A não ser, é claro, que encontrassem uma daquelas garrafas de um Merlot argentino, da safra de 2000, com aquele belo rótulo dourado em forma de carvalho, que ele achava que poderia ter em casa jogado em algum canto. Neste caso, é claro, ele não poderia dirigir.

Na quinta-feira, a Indiferença ainda estava na cama.

Na sexta-feira, o Medo, após ter percebido como é curta a vida, estava decidido a viajar para algum lugar que ele ainda não conhecia, como o Everest ou alguma dessas ilhas paradisíacas cheias de tubarões, onde fazem campeonatos de surfe. Tão logo ele começou a arrumar as malas, já foi pensando no insustentável peso do avião, subindo, cambaleando no ar, com a chegada programada para este sábado, no fundo do oceano, os destroços em farelos, sem registro de sobreviventes, e agora os esportes, obrigado. E nisso viu a aranha negra e colossal que corria no fundo da mala em direção à sua mão, o que o fez desmaiar por alguns minutos e esquecer da viagem.

E agora, nesse belo sábado, eu continuo aqui, comemorando a morte do Tédio. Ah, todos sabem o quanto nós dois nunca nos demos bem. Simplesmente não funcionávamos um com o outro, então ninguém veio tirar satisfações comigo. Para o inferno com o Silêncio. Os negócios estão borbulhando, agora. As roletas não param de girar, os copos não param de virar. Esse é o meu momento.

Ah, não, você não pode nos ver. Somos como os finos resquícios da fumaça de um cigarro que evapora no ar contra a luz do sol. Às vezes, em meio a um dia corrido e exaustivo, em que você preferia não ter acordado – somos nós que ditamos esses dias -, você pode, após uma combinação complexa de fatores improváveis, achar que viu, pelo canto do olho, um Oculto. Mas, antes mesmo de você pensar em piscar esses seus olhos comuns, já teremos desaparecido.

Pensando nisso agora, lembro que uma vez um cara conseguiu ver a Indiferença na rua (o que não é tão difícil). Mas ele só deu de ombros e continuou a fazer o que estava fazendo.

Mateus Feld
Revisão: Nicole Roth

A Janaína

Eu conheci a Janaína no café do aeroporto, depois de me despedir do Marciano, meu amigo magnata que eu nunca mais veria. O que é muito triste, pois da Janaína o Marciano muito teria gostado, muito mesmo. Tanto que, parando agora pra pensar, já me faz ficar na dúvida, se talvez assim melhor não fosse, que ele nunca tenha encontrado a Janaína. Acho que sim. Sorte a minha. Porque como tinha grana o Marciano… Tanta grana que podia comprar um avião, pensa só.

A Janaína estava perdida, toda boba, batendo o pé no chão e bufando a franja pro alto, sentada numa mesa do meu lado. Eu não sabia porquê ela estava assim, porque eu não entendia o que ela falava pro ar, porque nunca fui muito estudioso. A leitura, logo as vistas me cansava, e deu que quase nada de inglês eu aprendi na vida. Só sabia umas palavras aqui e acolá que eu acabava pegando dos encartes dos CD’s do estrangeiro. Mas aí que a Janaína uma hora, tanto o pé bateu no chão, que com um estalo arremessou o salto do sapato, que mais parecia estaca de matar vampiro, pra baixo da minha mesa, e eu olhei pra Janaína, a franja bagunçada, a cara branca que agora apimentava, e sórry, sórry ela me disse. Eu nunca fui um cara muito ousado, mas o sórry, sórry me fez virar por dentro, e eu não sei por que, mas o que eu fiz foi pegar o salto transparente, e o meu café que estava quente, e me sentar com a Janaína. E oubrrrigado ela arriscou, e eu dei uma risada, dessas bobas que homem dá, quando se aboba por mulher bonita, e porque ela riu comigo ao invés de se emburrar, eu já sabia que a Janaína ia me encantar.

Era difícil conversar com a Janaína, mas arriscando a gente ia.

Feijoada, eu dizia, mas a cabeça dela balançava.

Époupái, ela chutou, mas disso eu nunca ouvi falar.

Pão de queijo, eu tentei, porque não há pessoa viva e feliz que nunca um pão de queijo bem quentinho não comeu. Mas a Janaína deu risada e fez careta. Devia ser muito triste essa gente do estrangeiro.

Fráid tíquen, ela disse. Fráid tíquen, repetiu, e deu pra bater os braços que nem galinha. Nessa hora eu estranhei um pouco a Janaína, mas não deixei ela perceber. Depois fiquei pensando, que gente engraçada é essa, com comida esquisita. Talvez por isso fosse tão magrinha, tão branquinha a Janaína, parecia uma palmeira a beira-mar, toda coberta de areia jovem. Era bonita, a Janaína.

A gente foi tomando café e eu ficava sonhando que ela ali perdida, quando chegasse a noite, não teria onde ficar, e aí pra mim ela olharia com os olhinhos de raposa, meio sem jeito de pedir, e juntaria as palmas embaixo da face deitada, como quem diz que quer dormir, e depois encolheria os ombros com as palmas pro alto, fazendo um beicinho, como quem diz que não sabe pra onde ir. E aí eu botaria ela no carro e levaria ela pra casa pra dormir. Lá em casa ela tomaria um banho, então me abraçaria e daria um boa noite – do jeito que o estrangeiro diz boa noite – e aí ela alargaria seu sorriso e um beijo de cinema me daria. Aí ela dormiria na minha cama e eu ia ficar pensando, a noite inteira, no beijo de maçã da Janaína. E no dia seguinte a gente ia passear na praia até que ela esquecesse de ir embora. E vez ou outra eu faria pão de queijo e feijoada. Então se casar a gente iria. E se a gente botasse um moleque nesse mundo, muito chique ia ser, porque o garoto inglês e português já ia sair falando.

E tanto café tomamos, que quando vimos, as luzes dos aviões já rasgavam a noite lá fora. E aí a Janaína deu aquela espreguiçada e me olhou com seus olhinhos de raposa, meio sem jeito de pedir, e juntou as palmas embaixo da face deitada, e depois encolheu os ombros com as palmas para o alto e aí fez o beicinho. Então levei ela até o carro e fomos pra minha casa. Lá um banho ela tomou, então veio e me abraçou. Me deu gudnáit, alargou seu sorriso, virou os pés e pro quarto escapuliu, em passinhos de coelho. Óquêi.

Naquela noite o beijo da Janaína eu não ganhei, mas no dia seguinte a gente passeou na praia, até ela se esquecer de ir embora. E quando o sol dormir ameaçou, até a água levei ela, e num só puxão eu a agarrei nos braços e joguei ela e mais eu no mar gelado, gelado que nem pé de mendigo. E de novo, porquê a Janaína riu comigo em vez de se embrabar, por causa disso, nela um beijo eu dei. E eu vi que estava bom meu beijo, porque no meio dele dei uma piscada e vi que a Janaína com os olhos fechados me beijava, que nem beijo de filme do estrangeiro.

E o bom que foi de passear com a Janaína, só eu que sei. Depois, no meio da areia, até que preteou o céu a gente continuou trocando beijo. Até se entender um pouco a gente já conseguia, misturando nossos érres, nossos éles, nossas peles. E de noite, na cama, foi coisa bonita de se ver. Porque a pele dela, branca, branca, branca igual açúcar, misturada com a minha preta, preta, preta igual café de Minas… Que mistura boa a gente deu.

E todo dia, então, ela vinha pra minha cama, se aprumava lá comigo. E eu até já não pensava mais no por que da Janaína ter chegado aqui. Mas uma vez, enquanto a roupa ela tirava, pulou de um bolso um cartãozinho. Um desses de doutor. Aí que estranhei e fui olhar, e tinha um telefone esquisito e uma foto da Janaína, bem mais nova, com cabelo vermelho e a cara toda pintada, com uma roupa branca, bem curtinha, de enfermeira. Estranhei porque a Janaína não era doutora. Mas foi aí que descobri. Era puta a Janaína. Lá no estrangeiro, era puta a Janaína. Mas não dessas de esquina. Não, não. Era dessas chiques, que os magnatas levam pra mansão, e botam elas nas banheiras de massagem e dão champanhe caro. Eu não tinha nada dessas coisas. Mas porquê eu escutei ela ao invés de brigar, ela pegou na minha mão e deu aquela respirada funda pra mim.

E então que a Janaína me contou a história dela. Ela era puta já fazia um tempo, e tinha vindo pra se encontrar com um magnata que havia visto ela na tal da internet. Aí lembrei dela furiosa, bufando e batendo o pé e quebrando o salto. Acontece que o tal do magnata queria coisinha com ela antes de ir embora pra sempre, mas atrasou o avião dela, e quando ela chegou pra fazer o serviço, o magnata já tinha dado no pé, sem pagar nada. Tinha tanta grana o cabra, que até um avião podia comprar, me contou a Janaína. Pensa só.

Depois a gente ficou juntinhos o resto da noite, ela nos meus braços, eu nos braços dela. E foi aí, na cama, que a Janaína virou pro meu lado e um nome novo me pediu, um nome pra cara dela, pros olhos dela, pra pele dela, um nome meu pra ela. E eu olhei pra cara dela, com aquela boca larga e doce como gelatina, os olhos claros que nem piscina, a pele clara e cristalina, e eu lhe disse, então, eu te amo, Janaína. E porquê dessa vez ela não riu, e sim me abraçou e me beijou, eu sabia que, agora, era minha a Janaína. Sorte a minha.

Mateus Feld
Revisão: Nicole Roth

Silêncio no Confessionário

O padre fechava as portas de madeira que abrigavam o sangue e o corpo de Cristo no altar. Lá fora, o Sol se punha solitário, e seus raios se confundiam contra os vitrais coloridos, traçando formas alaranjadas dentro do templo. Sobre o altar, Cristo observava o padre com seus olhos vazios.

“Depois de todos esses anos o Senhor ainda me preenche de mistérios,” disse o homem.

“E o que é que nos motiva a continuar vivendo, se não os mistérios da vida, padre?”

O padre voltou-se, e seu olhar caiu sobre cabelos ruivos que corriam lisos até um pescoço fino, que por sua vez sustentava um rosto pálido. Era um rosto belo, mas ainda assim confuso, como são os belos rostos. A mulher não sorria e nem encarava; não era velha, mas também não era jovem; não era muitas coisas, e ainda assim, ali estava. Seus olhos queimavam.

“Tens razão, minha filha, tens razão,” respondeu o padre.

A mulher largou a bolsa de couro sobre um dos bancos, então se ajoelhou e traçou o sinal da cruz sobre o peito.

“Posso lhe ajudar, filha?” perguntou o padre.

“Sim, eu…” A mulher se levantou e varreu o templo com o olhar antes de responder. “Eu gostaria de me confessar.”

Era difícil de encarar os olhos da mulher. Eles diziam ao padre que aquela não seria uma confissão fácil. O homem assentiu e pediu à ela que o acompanhasse até o confessionário. A mulher agarrou a bolsa de couro e seguiu em frente, mas as mãos de leite lhe falharam e a bolsa foi ao chão com um baque seco. Antes que o padre pudesse se aproximar, ela já estava agachada recolhendo a bolsa. A mulher sorriu e continuou caminhando, olhos e cabeça baixos. O padre a acompanhava com o olhar.

“Não lembro de você nas missas,” ele disse.

“Não sou da cidade.”

“E de onde você vem?”

“De longe,” ela respondeu, parando em frente ao grande armário de madeira cor de mel. O padre desapareceu atrás da cortina vermelha pelo lado direito do confessionário, enquanto que a mulher entrou pelo lado esquerdo. Lá dentro ela viu um pequeno banco na mesma cor de mel, sobre o qual se ajoelhou. À sua frente, a tela de madeira por onde suas palavras seriam peneiradas até os ouvidos do padre. Ela ouvia a respiração lenta dele.

“É a primeira vez, filha?”

“Não.”

“Então entrego à ti o meu espírito e a minha atenção,” disse o padre com palavras falsas, porque sua mente vagava, tentando decifrar aquela mulher que tornava o ambiente tão pesado. “Pelo quê buscas o perdão de Cristo?”

Ela respirou fundo e soltou: “O senhor gosta do mar, padre?”

A pergunta nocauteou o homem, que desinflou os pulmões e respondeu: “Faz muito tempo que não vejo o mar, filha.”

A mulher esboçou um riso. “É claro, padre,” e então continuou:

“Quando eu era pequena, meu pai e eu dirigíamos até a praia todo sábado de manhã. Ele amava o mar e a pesca. Eu gostava de correr contra o vento e de pular nas ondas quando elas se quebravam. Eu lembro de como brincávamos. Lembro das dores de barriga, de tanto rir.” O padre podia ouvir o sorriso na voz dela. “Então, quando chegávamos em casa, meu pai nos fazia panquecas. Ele desenhava grandes olhos de geléia de uva e um sorriso de manteiga nelas, e dizia que elas tinham a fórmula da felicidade. Que quando eu ficasse triste, bastaria comê-las. Elas funcionavam.”

O padre ouvia com um sorriso no rosto mas com o coração dividido. Em que ponto essa criança tornara-se uma mulher com sangue nos olhos? O que a vida a fizera?

“Até que em um sábado elas não funcionaram.” O padre ergueu a cabeça e fitou a silhueta da mulher na penumbra. “Durante o café, meu pai me explicou que na segunda-feira teríamos de nos mudar da casa da praia. Iríamos para a cidade, por motivos que eu não poderia entender. Não haveria mais praia.”

“E então depois do almoço eles chegaram. Uma meia dúzia de homens, carregando varas, maletas, roupas grossas e engradados de cerveja. Eram amigos distantes do meu pai, que fariam uma última pescaria no domingo. Eu não conhecia nenhum deles.”

“Eu não sei se meu pai percebeu que eu estava triste, mas ele com certeza se divertiu. Ele bebeu a tarde toda com aqueles caras e continuou noite adentro com eles, como eu e ele jamais havíamos feito. Eu podia ouvir ele gargalhando e gritando coisas sobre a minha mãe. Coisas que eu não entendia na época, mas que hoje…”

Silêncio.

“Tudo bem, minha filha,” disse o padre coçando a barba rala, e então a cabeça e depois de volta para a barba. A mulher desatou o nó da garganta e continuou.

“Ele falava coisas sobre mim, também. Sobre os planos que ele tinha antes de eu nascer. Sobre tempo e dinheiro. Sobre liberdade. Então ele me viu escondida na cozinha e explodiu comigo. Ele prometeu que arrancaria os meus dentes e que eu ficaria uma semana sem conseguir sentar se ele me visse de novo acordada. Foi a primeira vez que eu senti medo dele. Nenhuma panqueca curaria aquilo.”

As mãos da mulher torciam a bolsa em seu colo. “Eu estava na cama engolindo as lágrimas, sem conseguir pregar os olhos. Mas chegou uma hora em que tudo ficou quieto, e eu resolvi descer pra tomar um copo d’água. Quando eu entrei na cozinha, vi a luz amarela da geladeira projetando uma sombra contra a parede. A sombra se ergueu e voltou-se contra mim. ‘Você não devia estar dormindo?’ ela disse, enquanto abria mais uma cerveja. ‘Eu só queria tomar água,’ respondi. A sombra serviu água em um copo e veio até mim. Agora a sombra era um rapaz de barba, e até onde eu sabia, o filho de um dos homens.

‘Seu pai não gostaria nem um pouco de lhe ver de pé,’ disse o rapaz me entregando o copo. Virei o copo e só percebi que aquilo não era água quando o líquido amargo incendiou a minha garganta. Eu comecei a tossir, enquanto ele ria. Tentei me virar e voltar para a escada, mas ele me agarrou pelo ombro. ‘Você não faz ideia do que o seu pai faria com você agora,’ disse ele, em meio a soluços. ‘Eu poderia contar pra ele que você está aqui, mas… Você não gostaria disso, não é?’ Eu fiz que não com a cabeça, e então ele me sentou no chão, se ajoelhou na minha frente e chegou bem perto do meu ouvido. O bafo de cerveja me dava náuseas, e eu podia sentir os pelos de sua barba espetando minha bochecha. ‘Se você ficar bem quietinha,’ ele disse, ‘eu prometo que não conto pra ele.’

“Eu não sabia o que fazer. Pensei na praia e no som das ondas se quebrando, e então senti as mãos molhadas dele nas minhas pernas. Pensei no vento gelado contra o meu rosto, e quando percebi, ele estava tirando meu pijama, sorrindo feito uma hiena. Eu ia ficar quieta. É claro que eu ia ficar quieta. Pensei nas panquecas, e em como meu pai sempre as deixava macias, e então ele colocou a garrafa de cerveja na minha boca e apertou minhas bochechas, dizendo pra eu não me mexer. Eu não aguentei muito tempo, mas obedeci. Depois disso ele encostou a boca dele na minha, e eu senti a língua molhada e amarga. Então ouvi o som de um zipper sendo aberto, e depois ele pegou minha mão e…”

O ar da cabine já não era suficiente para os pulmões do padre, e o suor lhe corria até a boca tremente.

“Eu não sei se foi a cerveja ou o meu cérebro tentando me salvar, mas eu não lembro do que aconteceu depois. Eu não lembrei de nada por anos. No dia seguinte acordei em minha cama, com meu pijama vestido. Eu me sentia suja. Meu corpo doía e minha cabeça girava. Na sala, nossa vizinha assistia TV, como sempre fazia quando meu pai precisava me deixar sozinha. Meu pai. Será que ainda estava bravo?

“Na segunda-feira nos mudamos e eu nunca mais consegui comer as panquecas dele. E eu nunca mais pedi para irmos ver o mar. O simples pensamento de chegar perto da praia me deixava em pânico.”

O padre molhou os lábios para conseguir falar. “Filha, eu…”

O murro na divisória de madeira fez a cabine tremer. “Não me chame de filha.”

O padre ainda podia ouvir o sorriso na voz dela, mas dessa vez era um sorriso recheado de ira e loucura.

“Eventualmente eu lembrei de tudo. Por que, veja padre, como eu disse quando cheguei, são os mistérios que nos motivam a continuar vivendo, não é? E eu voltei até a casa da praia. Eu sentei no chão da cozinha, onde a sombra deitou-se sobre mim. Fui até o mar e corri contra o vento. Eu consumi aquele mistério e continuei vivendo.”

“Quando eu voltei pra cidade, conversei com meu pai sobre aquele final de semana. Não sobre o que aconteceu comigo ou sobre a bebedeira dele. Não… Eu perguntei sobre os homens, padre. Sobre cada um deles. E eu não pude deixar de notar a surpresa de meu pai, ao lembrar-se de que só um dos amigos havia levado o filho. Um rapaz rebelde, que não queria nada da vida além de beber e pescar. Até que um dia, depois de uma bebedeira e um barco virado em alto mar, o rapaz decidiu endireitar sua vida e se candidatar a um seminário católico. Oito anos depois, o homem recebia o chamado da Ordem e era aceito como sacerdote. Uma vida nova, longe de casa e do passado negro.”

“Eu… Eu s-sinto muito,” disse o padre.

Outro murro, e agora as unhas da mulher arranhavam a divisória, a madeira estalando.

“E o seu mistério, padre? Hum? Você simplesmente esqueceu do seu mistério?” O zipper da bolsa de couro correu aberto, e o som congelou a espinha do padre.

“Eu sei que pequei, filha. Mas aquele homem já não existe mais há muito tempo. Eu encontrei a paz, e tudo o que eu posso fazer agora é pedir que me perdoe.”

“Eu realmente espero que Deus perdoe, Padre. Por que nós não perdoamos. Nós apenas esquecemos.”

“A compaixão de Cristo não tem limites, filha. Existe um futuro de paz para mim e para você. Em nome de Deus, eu lhe peço perdão pelo que fiz.”

“Em nome de Deus, padre?”

“Em nome de Deus, filha.”

Algo sólido tocou a divisória de madeira.

“Não.”

O disparou ecoou pelos vitrais da igreja, e então fêz-se silêncio no confessionário. A mulher levantou-se e saiu em direção ao corredor da igreja.

Seus olhos queimavam.

Mateus Feld

Revisão: Nicole Roth

Chances

Marco e Lara se conheceram na faculdade.

Ele estudava todas as noites. Ela dava aula, também todas as noites. Mas para Marco só nas quintas-feiras.

Que graciosas noites que eram as das quintas-feiras…

Marco havia voltado do seu período de serviço militar, e ele sabia que seria importante estudar para ter uma carreira concreta também fora do exército.

Lara voltara de um intercâmbio de mestrado e esta era a sua primeira turma. Estava orgulhosa de si mesma. Era a mestre mais jovem da universidade. Era eficiente. Era inteligente. Seu pai, alto general das forças armadas e muitíssimo chegado do governador, era um homem experto, e havia decidido que a filha deveria entrar para a universidade estadual mais cedo do que o restante dos seus colegas de ensino médio. Havia decidido, também, que aquela era a melhor instituição da região para ela. Havia decidido, inclusive, que aquele era o curso que ela deveria fazer, pois era o que melhor traria retorno financeiro. Ah, sim, e também decidira que ela deveria fazer um mestrado, um doutorado e um pós-doutorado, pois “ter uma pós-doutora na família traria muito prestígio”. E tudo isso ela faria, naturalmente. Era inteligente, afinal. Não tinha escolha, afinal.

Pensando bem, na verdade, ela dava aula nas quartas-feiras. Perdão.

Que belas noites que eram as das quartas-feiras…

Enfim. Marco e Lara se conheceram de verdade no restaurante da universidade, enquanto Marco mordia seu sanduíche, que deveria ser de frango mas na verdade era de atum, e avisava à garçonete que ela o havia entregado o sanduíche errado, e será que ele teria de pagar os dois e cinquenta novamente?, quando Laura chamou a atenção dos dois com sua voz de água corrente e informou-os que, por acaso, ela adorava sanduíche de atum, e que também não se importava com o fato de o problema em questão já ter levado uma mordida.

Lembrando agora, acredito que o problema era de brócolis, e não de atum. Mas é claro, Lara odeia atum.

Durante as férias, mantiveram em segredo o seu relacionamento de professora e aluno, mas não deixaram de aproveitar: na primeira oportunidade, fizeram uma longa viagem de carro para longe da cidade e de todos que poderiam lhes perturbar. Amaram-se na estrada; na cabana de campo do pai de Lara; sob os olhos do mar e do Sol nascente.

Até Marco receber o aviso de que teria de ser enviado em uma operação militar confidencial do outro lado do mundo. Por um mês. Sem comunicação.

Para falar a verdade, foram por três meses que Marco ficou fora. Isso mesmo, foram três meses.

Os três meses se passaram e Marco voltou com sua mente inundada em sangue e raiva e pânico; toda morte se torna uma parte da mente de quem sobrevive. Mas seu coração fervia e borbulhava em meio ao seu peito, ao pensar em Lara. Estava disposto a desistir de todo o sangue, raiva e pânico por ela.

Acontece que o pai de Lara havia descoberto sobre o seu romance, e decidido que aquele relacionamento era anti ético, uma abominação, um hematoma na família; opinião que ele deixou marcada e espalhada pelo corpo e pela mente de Lara. Para onde iria todo o prestígio construído por ela? Tamanha vergonha. Não, ele não aceitaria de jeito nenhum. E tomaria mais providências.

Mas Lara sabia o que queria. E o que ela queria acabara de telefoná-la para que se reencontrassem. Toda dúvida que ela sentiu durante os três meses que se passaram foi varrida da sua mente ao ouvir a voz de Marco. Pela primeira vez na vida ela faria uma escolha concreta sozinha. Essa escolha ela faria.

E ao se reencontrarem – esquecendo de tudo e de todos – por uma noite inteira os dois foram um só, e ela – a noite – foi bela e infinita, quase tanto quanto os dois corpos que, juntos na cama, fluíam e dançavam ao ritmo de seus suspiros e gemidos e risadas.

Até chegar o amanhecer, acompanhado pelo grito dos pneus contra o asfalto frio, e do bater das duas portas. Até os estampidos secos na porta do apartamento se misturarem aos gritos. Até a maçaneta ser arrombada, e o quarto ser invadido, vasculhado e, pelo máximo que os dois homens armados conseguissem, depredado até tornar-se irreconhecível.

Longe dali, duas mãos envolviam-se num aperto de carinho e esperança, dentro de um avião que iria para um lugar melhor para os dois. Para longe do alto general que, lembrando agora, era também muito amigo do delegado da cidade e do comandante da polícia estadual. E também dos diretores de algumas companhias aéreas, além de, é claro, ter um pessoal de olho nos aeroportos.

Por isso que, na verdade, os dois amantes pegaram o trem, ao invés de um avião. Sinto muito, tenho andado distraído.

Depois de voltar da última operação, Marco sabia que não aguentaria uma vida de serviço militar. Os dois estavam prestes a viver as suas vidas, da maneira como sonhavam. Viveriam esse amor aventuroso que os consumia por dentro, que rasgava cada tecido de suas entranhas e que pedia por uma chance. Dariam-lhe essa chance.

Mas tinham de ser cuidadosos: o alto general não pouparia esforços para evitar tal absurdo em sua família. Tamanha monstruosidade… O aviso havia sido claro e direto: quem quer que visse o filho do alto general acompanhado de outro homem, também de cabelos negros e cacheados, em qualquer rodovia ou aeroporto que fosse, deveria rendê-los imediatamente e informar sua localização exata. “Lucas, professor; e Marco, estudante e militar, entenderam? Não se esqueçam. Lucas e Marco”.

Ah sim, eu havia mencionado que na verdade era um filho que o alto general tinha, não? Se não, me desculpe, devo ter trocado as histórias mais uma vez. Não sei o que anda acontecendo comigo.

Mas a verdade é que isso não importa, certo?

Marco, e Lucas ou Lara que fosse: em qualquer história, no fim você só acaba torcendo pelo amor.

E era só isso que eles queriam.

Mateus Feld
Revisão: Nicole Roth

Último Beijo

O Sol queimava normalmente naquele dia sombrio. Sombrio para o futuro e para os sonhos do garotinho que, de pé no jardim de sua casa, tinha a pele de seda aquecida pelos raios do astro. Para ele, naquele momento – e para qualquer outro que também mirasse o céu azul -, seria quase impossível de acreditar na verdade.

Mas não havia dúvidas – o tempo todo, os cálculos estiveram errados. Ou o Sol simplesmente não fazia sentido.

Nada mais fazia.

 *****

O zumbido suave do motor distorcia o silêncio e o vazio das ruas. A cada casa, as cortinas se abriam em sintonia, e os olhos arregalados atravessavam as janelas, acompanhando o rodar do carro. Os olhos do motorista, no entanto, não focavam em nada; apenas estavam ali, estáticos, vazios como a estrada, dirigindo para lugar nenhum.

Não havia para onde ir. Não fazia sentido estar na rua, longe dos entes queridos, dos amores e das lembranças. Para ele, não havia sentido em ficar parado.

 *****

O velho padre desligara a televisão quando a última transmissão encerrou-se e a repórter matinal lembrou a todos de que o horário exato da explosão era desconhecido. O santo homem não via o noticiário matinal há anos. Um sorriso de dentes velhos cortou-lhe o rosto ao fim da transmissão; e pela primeira vez em um longo tempo, ele permitiu-se sentir o gosto salgado de suas lágrimas.

Um tímido raio de sol atravessou o vidro da janela e atingiu sua mão negra sobre o braço do sofá. Acompanhando o feixe com o olhar, ele notou o carro solitário distanciando-se pelo asfalto e então ponderou, brevemente, sobre qual seria o seu destino.

*****

Dentro do estúdio semi-vazio, a repórter, que carregava uma pequena mancha de nascença abaixo do olho esquerdo, agradecera a todos pela fidelidade e pela audiência e, fugindo do programado, não deixou nenhuma mensagem de apelo emocional ao fim da transmissão. Um aceno positivo e firme à câmera, e um suspiro de confiança, foram o suficiente. Profissional.

Seu trabalho estava feito. Podia ir embora.

 *****

O anúncio maternal de que o almoço estava servido fez com que o garotinho despertasse de seu transe e corresse para dentro da casa. Abrigada pelas paredes de alvenaria, a família se reunia ao redor da mesa, farta de lembranças, histórias, eventuais risadas e olhares distantes. A avó recolheu o garoto em seu colo, e ele admirou, um por um, todos os rostos que o rodeavam, rostos cujos nomes ele há pouco havia decorado. A avó, que por sua vez já não se lembrava do nome de todos os familiares, beijou as bochechas gordas do menino e informou-lhe de que a família estava completa.

Mas ele sabia que não era verdade. A sua manhã toda, o menino havia gastado em busca do vira-latas caramelo que ali vivia, com quem muito ele já havia brincado, e que desde cedo não era visto por ninguém.

Não, para ele a família não estava completa.

 *****

O rangido comprido do freio de mão assustou alguns pássaros que descansavam sobre os galhos logo acima. De dentro do carro, o motorista mirou seu banco de madeira rachada, onde ele costumava sentar-se para esvaziar a mente ou pensar sobre tudo. Em frente ao lago que costumava cheirar a peixe morto e fezes de pombas, com uma madeira faltando no acento, aquele era o pior banco do parque. Era o seu banco. E havia alguém sentado nele.

O homem espreguiçou-se no banco do carro e ponderou sobre a situação. A figura estava de costas para ele, observando o reflexo ardente do sol sobre o lago.

Ele bateu a porta do carro, e sobre os estalos secos das folhas de junho, caminhou até o seu banco. Ao sentar-se, ainda cavava no fundo de sua mente algo para dizer à mulher, quando ela atravessou seus pensamentos e iniciou a conversa:

“Não vai vir com a do ‘esse é o meu banco’, como fazem os caras nos filmes, né?” O meio sorriso dela era mais vivo que o Sol.

“Não,” ele debochou, devolvendo o sorriso, hipnotizado pelos olhos largos dela, da mesma cor da mancha que ela possuía no lado esquerdo do rosto. “Não vejo filmes.”

“Como assim, ‘não vê filmes’?” ela retrucou, olhando para ele como uma criança que acaba de ouvir sobre mecânica quântica.

“Não acho que fariam muita diferença agora, né?” Ele cruzava os braços atrás da cabeça e esticava as pernas. Continuava com algo martelando em sua mente. Aquele rosto, aquela mancha abaixo do olho…

“Eu já vi você em algum lugar… Certo?”

“É, é provável que tenha visto.”

“Então é isso?” Ele ajeitou-se no banco. “É aqui que você vai estar quando acontecer?”

A repórter levou alguns segundos, até balançar a cabeça confirmando.

“Eu tinha um como aquele, quando era criança,” o homem disse, empinando o queixo para um cão de pelagem caramelo, que se esforçava para partir um galho seco em dois do outro lado do lago. O galho, por sua vez, não contribua muito.

“Caramba,” ele riu, “você devia ver: eu não me importava com nada e nem com ninguém – eu só queria saber do bendito cão… Era um bom cão.”

A mulher perguntou-se sobre o que teria acontecido com o animal, mas manteve a pergunta para si mesmo.

O vira-latas insistia sem cessar, jogando o galho para lá e para cá, junto à brisa fraca do meio-dia.

O homem só tirava os olhos do cão para se dirigir a ela.

“Ele não faz ideia. Não é incrível, isso?”

“É. Eles com certeza são felizes. Mais que nós.”

“Hummm. Eu não tive uma vida muito feliz, graças a Deus.” E os dois riram juntos, e a mulher se deu conta de que ela não interagia tão naturalmente com um desconhecido desde que ela conseguia se lembrar; e o homem não pensava em nada que não tivesse relação com o sorriso de Mona Lisa dela.

“Você é religiosa? Sua família?”

E percebendo a hesitação dela, ele atropelou sua justificativa: “Quer dizer, o Sol explodindo do nada, sabe? Nada do Apocalipse de Deus, os cavaleiros e as trombetas e tudo o mais…” Ele só deixou as palavras dançarem por si só no ar. “Quer dizer… Deve ser um pouco decepcionante para um religioso, não?” E então ele parou por aí.

“Eu entendi. E não, não sou religiosa. Não mais.”

Uma nuvem farta manchou o céu azul e estacionou em frente ao sol. O cão dava a volta no lago e começava a se aproximar das figuras no banco.

“Mas meu pai deve estar se enforcando em seu rosário.”

“É por causa dele que você não é religiosa?”

“É por causa da religião que eu não tive um pai.”

A sombra da nuvem os engoliu lentamente. A repórter projetou da sua bolsa um cantil prateado, provavelmente – o que ele concluiu de longe, só pelo cheiro – com uísque.

Ela deu um gole comprido no cantil e ele parou no tempo, hipnotizado pelos curtos segundos entre a queda de uma gota âmbar pelo canto dos lábios dela, e a língua rosada que ela logo utilizou para recolhê-la. O caminho percorrido pela gota ainda estava lá.

Ele acordou com o cantil sendo balançado na sua frente e com a voz dela:

“E você?”

“O que?”

Ela riu insistindo em passar o cantil para ele.

“É religioso?”

“Ah, claro,” e então foi a vez dele dar um gole comprido. O sabor firme e áspero da bebida explodiu em sua boca e ele logo o expeliu com algumas tossidas.

Nah. Quer dizer, acho que sempre acreditei em Deus. Mas não daquele jeito, sabe? Não na história que foi escrita.”

Ele passou a bebida de volta, e ela repetiu o gole.

“E por quê?”

“Não acredito que exista altruísmo.” O gosto de carvalho ainda adormecia sua língua.

O cão agora arfava na frente deles implorando pela sua atenção enquanto forçava o galho seco entre as patas, cada vez com mais força.

Ela riu e então acenou para seu próprio braço, que alcançava o uísque para ele: “É? Então o que é isso?”

Ele juntou seus lábios à boca do cantil e deixou que o líquido quente e oleoso escorresse para sua garganta naquele último beijo.

“Bem, é o fim do mundo, não é?”

A resposta foi um estalo forte que veio de seus pés. Com o galho partido ao meio, o cão deu-se por satisfeito, e, tendo sido previamente ignorado pelo homem e pela mulher, recomeçou seu caminho de volta à estrada, enquanto os dois riam e celebravam, cada um com uma metade do galho seco na mão, tentando chamar o canino de volta.

Longe dali, por trás da nuvem gorda, o Sol do meio dia acabava de explodir sozinho em sua supernova majestosa e improvável, indo contra todos os cálculos e estudos que o homem havia feito até então.

Mas ainda levaria alguns minutos para que o homem e a mulher soubessem disso. Para eles, o astro ainda consumia sua febre longa e solitária, quando um feixe de luz irrompeu através da nuvem de algodão e os atingiu.

O toque da luz foi quente e acolhedor; o clima estava agradável. Isso era tudo que eles tinham. E era tudo de que eles precisavam.

Mateus Feld

Revisão: Nicole Roth